Trabalhar-se-á dentro das seguintes possíveis definições para o termo linguagem, termo em qual este texto se amparará como primeiro bloco construtivo em seu desenvolvimento, são duas: linguagem como todo sistema de signos cujo fim ultimo é comunicação; e como a capacidade própria humana de comunicação. A primeira definição abstrai do produto da segunda–as línguas, sistemas de comunicação –características gerais que podem ser traçadas a um fenômeno chamado linguagem; porém, talvez abstraia o fenômeno em si, uma vez que ele, neste sentido, não pode se dar a parte de sua instanciação concreta. Dessa forma haveria uma fato composto, com uma parte concreta (línguas) e uma parte abstrata (linguagem), esta, possibilita o reconhecimento de todo sistema de comunicação como o mesmo tipo de coisa, o mesmo fenômeno. Por que? porque o é, abstraindo-o de sua instanciação individual podemos vê-lo e reconhecê-lo em outras instanciações. Daí a abstração do fenômeno em contraposição as características gerais somente. A segunda, contempla linguagem como potência em vez de efeito ou produto; desse modo, a faculdade humana produz os diversos sistemas de comunicação correntes pelo mundo. Estes, nesse molde, são chamados de língua, termo que agora toma para si dois valores possíveis: um genérico e outro particular; o genérico se refere a língua como a linguagem tomada na primeira definição– mais abstrata– e o particular diz respeito a língua como língua particular, caracterizada por um termo restritivo, e.g. língua portuguesa. Contudo, observa-se que a depender da conotação que se atribui ao termo linguagem, os termos procedentes se alteram em conformidade; todavia as definições são únicas, e basta saber de qual se trata para evitar confusões.
No produto da faculdade comunicativa humana, mais especificamente as línguas naturais, que são dotadas de fala, há uma gramática. O que é gramática? A depender de sua conotação podemos ter, uma vez mais, diversas definições, cada qual com suas especificidades e fins diferentes. Mas tomada em sua essência e no que se refere a exposição de um determinado idioma, pode-se dizer que gramática é um agente limitante, o qual, por meio da limitação, da uma forma definida a uma língua, forma definida que não seria possível obter em meio as possibilidades praticamente infinitas, logo, define-se, o que implica circunscrição, limitação; e indefinição implica caos, desordem, ilimitação e possibilidade. Há de se, portanto, limitar para obter forma e ordem. E é justamente isso que gramática visa a ser, aquilo rege a forma e ordem de uma língua. Ordem implica harmonia, razão, e estrutura. Sem ordem não seria possível nenhum tipo de articulação nem discernimento, logo, todas as línguas são dotadas de ordem, ainda que não sejam totalmente. Isto posto, uma gramática pode ser classificada em diversos tipos de acordo com o seu fim particular, a expositiva, que será a abordagem gramatical tomada aqui, é a reunião e exposição metódica dos fatos de uma língua. Apesar do nome, um livro desses é prático ao mesmo tempo que expositivo. Ele pretende ensinar o correto uso da língua ao mesmo tempo que expor seus fatos. Através dessa exposição de fatos ficamos cientes dos componentes de um idioma e de como se estruturam, dos maiores até os seus mais ínfimos, e disso se seguem, por sua vez, as regras que regem o seu correto uso, assim como as exceções (efeito daquela ordem parcial anteriormente mencionada, mas que também caracteriza uma língua viva que não se desenvolveria ao longo do tempo sem esse elemento caótico).
Outro fator importante a ser considerado, e que auxilia na manutenção e preservação de uma língua é a escrita. Há uma espécie de influência recíproca exercida entre a língua falada e a escrita, no sentido de que esta ajuda na preservação da língua e aquela tem suas mudanças registradas na escrita. Visto isso, não seria irazoável declarar que a gramática é um dos mais importantes documentos de registro de uma língua. Novamente, para escrever algo de fato, e comunica-lo, precisa-se de ordem, caso contrario não o seria possível; por isso, a escrita é organizada em sistemas diferentes dos quais pode-se escolher para um determinado idioma. Ao passo que seja uma simplificação, para evitar uma cobertura exaustiva e não desviar o foco, os tipos de sistemas de escrita existentes serão reduzidos a três principais: sistemas segmentais (os alfabéticos se encaixam aqui), sistemas silábicos e os logográficos.
Os segmentais são orientados a uma representação precisa dos fonemas de uma língua, compondo palavras som por som. Uma vantagem disso seria que o numero de grafemas ou caracteres necessários diminuem, os alfabetos tendem a ficar ao redor de 30, enquanto em sistemas logográficos, como o chinês, chegam a norte de 4000; aliás, é uma correlação interessante de se notar: conforme a quantidade de conteúdo que se impõe nos caracteres do sistema, maior o numero de caracteres necessários para representar a língua. Talvez uma razão seja que caracteres simples como os alfabéticos contem em si menos combinações possíveis, ao contrário dos logográficos, que são geralmente morfemicos e se realizam como palavras nas diversas combinações com outros caracteres, que podem ser palavras em si ou morfemas também. Os silábicos, como o nome diz comportam silabas como as menores unidades compositivas, e mais uma vez pode-se observar a correlação, há mais sílabas em um idioma do que fonemas uma vez que aquelas são resultados das combinações dos múltiplos fonemas. Os sistemas de escrita silábicos são mais adequados a uma língua que apresenta estruturas silábicas mais simples como o japonês em contraposição ao inglês. Os sistemas logográficos por sua vez, detém grafemas que representam palavras, morfemas, ideogramas e pictogramas. Seu conteúdo é primariamente significativo, ou seja, encerra puramente o significado e é desprovido de aspecto fonético; todavia, os carácteres também podem ter partículas fonéticas para ajudar a determinar a sua correta pronuncia. Sistemas logográficos, em virtude de serem primariamente significativos e não fonéticos, podem ser usados em diversas línguas sem que sofra alterações, isso é vantajoso uma vez que, duas pessoas, falantes de línguas diferentes podem se comunicar por via desse sistema posto que ambos o conheçam. Contraposta aos alfabéticos, essa vantagem se faz mais evidente, visto que os sistemas alfabéticos são adequados a um idioma e não se lê-los sem conhecer o acervo fonético daquela língua, ou seja esse sistema de escrita, na medida em que é adequado a um idioma é dependente dele. E não se entende ou usa plenamente esse sistema sem antes, ao menos até certo ponto, conhecer o idioma.
Uma vez compreendido o que é um sistema de escrita, adentrando um pouco mais nos sistemas que estabelecem uma relação de dependência com a língua, a exemplo: os alfabéticos. Nesse sistemas, há subsistemas chamados ortográficos, i.e., dentro do sistema de escrita escolhido, se desenvolve um subsistema como mediador entre o idioma e a escrita de um tipo ou de outro. Nos alfabéticos, os sistemas ortográficos são como software trabalhando em cima de um hardware. É aquilo que separa a escrita francesa da portuguesa por exemplo. Neles teremos uma serie de regras que orientam o individuo na hora de escrever: tais como, regras de soletrar, de acentuação, da correta transposição dos fonemas, partição dos vocábulos etc. todas elas refletem, em grau maior ou menor, a natureza e desenvolvimento de uma língua.
Posta essa abordagem mais geral, tratar-se-á do assunto agora de forma mais especifica, considerando o foco anteriormente mencionado de uma gramática expositiva. Uma gramática de língua portuguesa, pode vir com mais ou menos divisões conforme o intento do autor, mas geralmente podemos encontrar dentre as gramáticas, as seguintes: fonética, fonologia, ortografia, morfologia, sintaxe e semântica. Estabelecendo as bases sonoras, passando pela ortografia (correta escrita), pelo estudo das palavras até as construções frasais e seus termos assim como seus significados nos respectivos contextos. É interessante de se notar que a ordem traçada é construtiva; isto é, primeiro vem som, depois palavras, depois frases, depois significados. Tal construtividade projeta uma unidade entre as partes. Ademais, ela não se detém somente na relação entre suas partes, mas também se manifesta dentro das próprias partes. I.e. há uma unidade geral provocada por uma relação de construtividade e uma unidade interna refletida nas partes em si, como que imitando mais ou menos perfeitamente a unidade geral do conjunto. Vide a fonética e a fonologia, com os fonemas (ou fones) como unidades sonoras fundamentais, que por sua vez se unem em silabas para formarem vocábulos, grupos acentuais e grupos fônicos; ou a morfologia, com os seus diversos morfemas que se unem em termos simples ou compostos. Ainda que analogicamente, nota-se: simetria, harmonia, unidade, características da ordem, que é inerente a gramatica. O conteúdo procura, ainda que não perfeitamente, externa e internamente estabelecer uma simetria na conjugação harmônica (no que diz respeito ao modo construtivo) das partes, e com isso, buscar uma unidade. É claro, a relação observada não é o único fator justificativo da unidade por exemplo, mas é certamente um.