Platão, Crátilo: Tese e Antítese

Tese e Antítese: Notas sobre o Crátilo de Platão

Com respeito ao estatuto das línguas, mais particularmente de seus componentes — nomes e verbos — surge a questão de saber se eles são arbitrários ou se seguem algum tipo de semelhança natural conforme as essências das coisas. Sob essa tese da semelhança, poderíamos manter os nomes apenas como representações ou entendê-los como expressão genuína da essência do objeto. Nesta última hipótese, a linguagem seria elevada a uma posição tão alta que a mera menção do nome de um objeto natural estaria intimamente ligada à sua essência. Tal processo pressuporia algo noético, como a capacidade da mente humana de traduzir forma diretamente em substratos materiais como o som; mais ainda, pressuporia algo sobre a matéria, sua relação com a realidade e as próprias naturezas das coisas. Haveria um tipo de interpenetração entre material e imaterial, entre matéria e forma. Seria como se, ao chamar um objeto por seu nome próprio, você quase o manifestasse, chamando-o para dentro de si e dos outros. Parte de sua dimensão sonora, parte de sua dimensão simbólica, e na sua alma a própria forma se daria a conhecer.

Na primeira posição, contudo, embora as representações não sejam convencionais e arbitrárias, da mesma forma que ao fazer uma pintura não se age arbitrariamente, mas sob uma ordem adequada (proporção, luz e sombra, gesto, teoria das cores etc.), também o nome não seria convencional nem arbitrário, apesar de poder ser feito de muitas maneiras diferentes, como no estilo realista, clássico ou impressionista. Essa posição limita suas afirmações a dizer que há princípios comuns por trás da ordenação dos nomes, sem afirmar a existência de estruturas universais neles, tanto materiais quanto imateriais — uma na essência da coisa e na alma, e a outra, material, como certos tipos de matéria associados a determinadas essências, ou ao menos a partes potenciais delas, como o carbono é para uma parte potencial da essência “animal”.

Quanto à antítese — a tese segundo a qual o nome da coisa seria completamente convencional — pode-se notar que Sócrates tentou encontrar um tema subjacente comum que servisse de base para a natureza de coisas inter-relacionadas, como sabedoria, bem e conhecimento, relacionando-as à ideia de liberdade, movimento desimpedido ou libertação. Por outro lado, “mal” seria um aprisionamento desse movimento. Mas no fim ele falhou, pois viu que as mesmas palavras podiam significar o oposto segundo diferentes interpretações. Acabou convencido pelo problema da identidade sob movimento absoluto ao investigar por meios que não eram a própria significação dos nomes. Tudo isso poderia corroborar a tese de que a diversidade das línguas pesa a favor da convencionalidade dos nomes.

Apesar disso, o Crátilo nos deixa com uma síntese plausível entre convenção e naturalidade. Por um lado, ao decompor nomes em seus elementos, as letras, e mostrar como cada uma pode estar associada a diferentes qualidades — como o “r” à rapidez e ao movimento, ou o “l” à suavidade ou deslize — e como uma palavra que emprega corretamente esses elementos, expressando com maior semelhança aquilo que se pretende significar, é mais adequada. Por outro, mostra que segundo esse critério alguns nomes são inadequadamente atribuídos, acrescentando um aspecto de convenção através do uso; uso tanto de nomes adequados quanto inadequados. Também é de notar que, sob esse quadro, os nomes são representações das coisas. Levando isso em conta, Sócrates faz uma distinção importante: a representação de coisas de natureza não sensorial é diferente da representação de coisas de natureza sensorial. A primeira implica certo tipo de necessidade, pois devem ou ser algum número (por exemplo) — apesar das modificações introduzidas — ou não ser absolutamente nada. A segunda, como a pintura, não pode conter todos os detalhes que representa. Assim, nomear coisas seria equivalente a representar coisas sensoriais porque envolve um suporte material (o som) e, portanto, sensorial. Mas isso significa então que as representações de coisas imateriais contêm todos os detalhes que representam? Na medida em que as representações dos números não tomam forma material, mas permanecem na mente, sim — é isso que parece ser sugerido. Poder-se-ia ainda propor uma conexão com o eidos. Quanto a isso, não é certo.

Por fim, pode-se argumentar, ironicamente em termos aristotélicos, a favor dessa síntese e contra a convencionalidade absoluta dos nomes. Baseando-se nas essências fixas das coisas, as ações realizadas em relação a elas devem estar de acordo com os princípios de suas essências, pois os acidentes e propriedades seguem da essência. Assim, o espectro de ações que se pode realizar sobre um objeto é delimitado por sua estrutura material e seu círculo de latência/possibilidades (que decorre da essência ou identidade do objeto). Por exemplo, um cão não pode voar. Seguindo essa linha, a performance de uma ação corresponde à própria natureza da ação. Um objeto que, em sua natureza, tenha o cortar como um acidente possível (da categoria ação), e outro que tenha o ser cortado como acidente correspondente (da categoria paixão). Assim, para cortar é preciso informar a matéria, trazê-la à formação na semelhança daquilo que corta; semelhantemente, deve-se nomear (um ato) na semelhança daquilo que é nomeado. Se mantivéssemos essa analogia de modo rígido — “ser como aquilo que nomeia” — os corolários seriam diferentes, pois os nomes seriam semelhantes à mente humana. Mas poderíamos objetar que essa semelhança seria com a mente humana apenas na medida em que ela reflete ou faz ponte com as essências das coisas.

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