Estudos em Línguas: Português-1.3

Morfologia

Uma vez estabelecido o panorama do estudo sonoro de uma língua e constituída a noção de vocábulo, isto é, a palavra tomada em seu sentido puramente material, quanto somente ao som que ela encerra, pode-se passar ao estudo das palavras como termos (em seu aspecto significativo). Esse é o domínio da morfologia; enquanto na fonética e fonologia estudava-se a estrutura e formação da palavra sob sua vertente vocabular, na morfologia estudar-se-á isso na sua vertente terminológica. Depreende-se, portanto, assim como na exposição anterior, o que a maioria dos gramáticos chama a unidade mínima significativa de um termo, o morfema. Um termo, e.g. vermelhos, se decompõe em morfemas diversos, vide: vermelh (cor); o (gênero); s (número). Porém, não são propriamente unidades, mas sim partes significativas; fossem unidades, elas formariam um sentido justaposto e disjunto, conservando o referente de cada morfema, e não a palavra una com um significado novo e simples. Muitas vezes tem-se morfemas a produzirem sentidos totalmente novos através das possíveis combinações, daí que são partes significativas apenas. As unidades são palavras, em torno das quais um sentido uno se constitui. Os morfemas se categorizam da seguinte maneira: em livres, que podem figurar sozinhos, com autonomia vocabular, e.g. rua; e presos, aqueles que não se encontram isolados, de modo independente, e.g. s, a, o; tais morfemas não têm existência autônoma, sua existência é definida em função de outros morfemas. Quanto à natureza da significação, eles se classificam em lexicais e gramaticais. O primeiro diz respeito àqueles que possuem significação externa, que se referem aos fatos do mundo extralinguístico, aos símbolos básicos de tudo que os falantes distinguem na realidade objetiva ou subjetiva (céu, colar, vermelho, olhar, felicidade, tristeza). Em contrapartida, os gramaticais possuem significação interna, pois derivam das relações e categorias levadas em conta pela língua. Assim, morfemas tais como os presos, as preposições ou as conjunções seriam exemplos, uma vez que visam estabelecer relações internas no conteúdo da mensagem, i.e. entre os termos da frase, ao invés de ser entre os termos enunciados e os fatos do mundo.

Posta essa classificação básica, pode-se discernir mais especificamente, isto é, aos nomes que se dão às espécies diferentes de morfemas uma vez postos os seus gêneros. Atente-se, porém, que a classificação genérica dada acima não é uma em que a precedente engloba a posterior, mas que são duas maneiras diferentes, as quais podem coincidir ou divergir; dessa forma, a distinção entre morfemas livres e presos não subscreve sob si a de lexicais e gramaticais, uma vez que morfemas livres podem ser tanto lexicais quanto gramaticais. No gênero dos lexicais temos, após uma decomposição da palavra em suas unidades mórficas, os radicais; a eles, se agregam os morfemas gramaticais presos, que podem ser uma desinência (ou morfema flexional), um afixo (morfema derivacional) ou uma vogal temática.

Morfemas gramaticais, como previamente dito, podem ser soltos ou presos; aqueles se exemplificam em classes como preposições ou conjunções; estes, nas três classes explicitadas acima. As desinências são também chamadas de morfemas flexionais para evidenciar sua natureza, pois modificam verbos, substantivos, adjetivos e certos pronomes; modificações essas que indicam, nos verbos: o número, a pessoa, o tempo e o modo; nos substantivos, adjetivos e pronomes: o número e o gênero. Há, nesse sentido, desinências verbais e nominais, porque, evidentemente, tem-se um conteúdo diferente nas modificações. Os afixos ou morfemas derivacionais (termo que remete aos processos de formação de palavras nos quais os afixos estão envolvidos) são elementos que geralmente modulam de maneira precisa o sentido do radical a que se agregam e subdividem-se em dois tipos. Os afixos que se antepõem ao radical chamam-se prefixos; os que se pospõem ao radical são chamados de sufixos. Dessa forma, o prefixo “re” em reviver significa novamente, o que modifica o sentido de viver para viver novamente. Os sufixos, como as desinências, se unem ao final da palavra; eles, porém, alteram o sentido lexical da palavra, podendo até mudá-la de classe, transformando substancialmente o sentido do radical, coisa que a desinência não realiza por si. Compare-se: o verbo com a desinência “-emos” na palavra fizemos, proveniente do verbo fazer, a classe não muda; o sufixo adverbial “-mente” em controladamente, proveniente do substantivo controle, faz a classe passar a ser advérbio (no entanto, isto não significa que a adição de um sufixo vá sempre alterar a classe morfológica da palavra; muitos sufixos a alteram em outros sentidos que não o de classes, vide os aumentativos e diminutivos, dentre outros). A depender do afixo aderido, a palavra se alterará de maneiras diferentes, mas sempre haverá uma modificação mais ou menos precisa neste sentido ou naquele. Há ainda a terceira categoria de morfemas gramaticais presos, que são as vogais temáticas, pequenos segmentos de termos que indicam a qual conjugação pertencerá um determinado verbo – se a palavra for um verbo – se é “a” primeira conjugação, “e” segunda, “i” terceira conjugação. Também temos as vogais temáticas que ligam os radicais de nomes às suas desinências respectivas, separando as palavras em grupos ao modo das declinações latinas; logo, segue-se que elas se subdividem em nominais e verbais. Assim, na palavra renovamos, decompõe-se para obter o prefixo “re-“, o radical “nov-“, a desinência “-mos” (número-pessoal) e a vogal temática “a”, indicativa dos verbos de primeira conjugação. Verifica-se, pelo mesmo processo, em “fazemos”, “e”, segunda conjugação, “construímos”, “i”, terceira conjugação. Cada um desses verbos também possui a vogal temática em suas formas infinitivas; logo, para verificar mais certamente a conjugação de um verbo, basta convertê-lo para o infinitivo (renovar, fazer, construir). Na mesma linha, têm-se certas palavras que se agrupam segundo essas vogais: posto – lodo – gato; casa – baleia – raposa. (Tenho suspeitas de que as vogais temáticas têm origem no latim, com suas declinações e conjugações verbais.)

Antes de passar à formação de palavras, discerne-se os tipos de palavras diferentes dentro de um sistema de classificação combinatório em ordem a esse processo: as primitivas, derivadas, simples e compostas. Denominam-se primitivas as palavras que não se originam de nenhuma outra e que, ao contrário, contribuem para a formação de outras palavras. As derivadas, por sua vez, como se pode depreender do nome, são aquelas que se originam mediante o acréscimo de um afixo a um radical. Vide: sal, salino. Palavras simples são aquelas que possuem somente um radical, seja primitiva, seja derivada; as compostas, em contrapartida, são aquelas que são obtidas por mais de um radical. Nesse contexto, pode-se agrupar as palavras em torno de “famílias”, como todas as palavras se unem em torno de um radical comum do qual se formaram por um processo de formação por derivação ou por composição.

Note-se que os processos de formação de palavras são nomeados de acordo com os tipos de termos mais complexos descritos acima (derivados e compostos). Em verdade, são desses processos – composição e derivação – que esses tipos obtêm seus nomes. “Chama-se de formação de palavras o conjunto de processos morfossintáticos que permitem a criação de unidades novas com base em morfemas lexicais. Utilizam-se assim, para formar as palavras, os afixos de derivação ou os procedimentos de composição” (Nova Gramática do Português Contemporâneo). Tanto os prefixos como os sufixos conservam, de regra, uma relação de sentido com o radical derivante; processo distinto da composição, que forma palavras – não raro – dissociadas do sentido dos radicais componentes. Começando pela derivação, a primeira divisão é dada em cinco: prefixal, sufixal, parassintética, regressiva e imprópria.

Derivação é o processo em que afixos se aglutinam em torno de um radical para formar novas palavras. Segundo esses afixos, tem-se a derivação prefixal, tal derivação, segundo seu nome explicita, é a formação de palavras mediante o emprego de prefixos. São eles de origem latina ou grega, alguns sofrem alteração ao contato com a vogal ou consoante da palavra derivante, como an e in do grego e do latim em apatia e ilegal, mas nem sempre vem assim – dependendo da palavra – anônimo, infeliz. Não confundir com as formas vernáculas oriundas da evolução normal de certos prefixos latinos (a-, ad-) (a-doçar). “Os prefixos são mais independentes que os sufixos, pois se originam, em geral, de advérbios ou de preposições que têm ou tiveram vida autônoma na língua” (CUNHA, 2016, p.97; CINTRA, 2016, p.97).

A sufixal, processo em que é aderido um sufixo a um radical, englobando também as desinências, se subdivide de acordo com o tipo de palavra formada em nominal, verbal e adverbial, daí os sufixos nominais, verbais e adverbiais. A nominal se dá quando se aglutina um sufixo a um radical para dar origem a um substantivo ou um adjetivo: ponteira, pontinha, pontudo; a verbal acontece quando a conexão gera um verbo: bordejar, suavizar, amanhecer; já a adverbial se dá quando se acrescenta o sufixo “mente” à forma feminina de um adjetivo dando origem a um advérbio: bondosamente, perigosamente, fracamente.

Derivação parassintética é o processo em que há uma aglutinação simultânea de prefixo e sufixo a um radical, uma vez que, se eliminarmos a existência de qualquer um desses dois do vocábulo, a palavra não possuirá sentido próprio: des + alma + ado, re + patri + ar; como se observa, não existe patriar, nem almar, e muito menos repátria. A formação é coextensiva; esses vocábulos denominam-se parassintéticos.

Quando se trata, ao contrário, de uma redução vocabular e não de ampliação, como nos casos precedentes, tem-se a derivação regressiva; esta possui importância na formação dos substantivos chamados deverbais, mediante o emprego das vogais –o, –a ou –e ao radical do verbo. E.g. custar – custo, ameaçar – ameaça.

Por último, temos a derivação imprópria, assim nomeada devido ao fato de que não modifica o vocábulo materialmente, isto é, quanto à sua figura, tão somente quanto à sua classe, geralmente por meio do emprego de artigo ou algum outro artifício que não passa a integrar a palavra como tal; e.g. o belo, os prós, os contras, um sim, um não, silêncio!, bravo!, jantar. Por esse processo de enriquecimento vocabular um tanto heterodoxo, explica-se a passagem de substantivos próprios a comuns e vice-versa, de adjetivos a substantivos e vice-versa, de substantivos, verbos e adjetivos a interjeições, de verbos a substantivos etc. A rigor, a derivação imprópria pertence mais ao território da semântica.

Passemos à formação de palavras por composição. Nesse caso, classifica-se em três eixos distintos, isto é, quanto à forma, ao sentido e quanto à classe gramatical. No primeiro, tem-se a composição por justaposição e aglutinação; aquela consiste em palavras justapostas, conservando sua integridade vocabular, sonora, vide: beija-flor, segunda-feira, madrepérola; as palavras conservam a unidade materialmente, produzindo novo sentido lexical. Esta, no entanto, apresenta perdas na integridade silábica, subordinando-se a um único acento tônico: aguardente (água + ardente), embora (em + boa + hora).

No que diz respeito ao sentido, “…distingue-se numa palavra composta o elemento determinado, que contém a ideia geral, do determinante, que encerra a noção particular. Assim, em escola modelo, o termo escola é o determinado, e modelo o determinante. Em mãe-pátria, ao inverso, mãe é o determinante e pátria é o determinado.” (CUNHA, 2016, p.120; CINTRA, 2016, p.120).

Quanto à classe gramatical, são discernidas as classes gramaticais dos elementos compositivos: porco-espinho (substantivo-substantivo), pé-de-meia (substantivo-preposição-substantivo), criado-mudo (substantivo-adjetivo), segunda-feira (numeral-substantivo), vaivém (verbo-verbo) etc.

Procedendo no estudo, nomearemos as classes gramaticais; estas se basearão nos dois polos a partir dos quais toda língua se desenvolve: verbos e nomes, sujeito e predicado. Além disso, traçam um eixo geral em que se analisa a forma das palavras propriamente, o sentido produzido por elas e a relação existente entre vocábulos. A partir da análise desses três aspectos, classificamos não só morfologicamente, mas também sintaticamente. E.g. abordando a categorização morfológica, primeiro se verifica a forma da palavra, depois o sentido e a relação dela com os termos essenciais da oração.

No caso do nome/sujeito, encontraremos as classes do substantivo, do artigo, pronome, adjetivo e numeral. Existem também as classes relacionadas ao verbo, o advérbio; há ainda os conectores, que servem para ligar palavras umas às outras, são as conjunções e preposições; além disso, temos as interjeições, que geralmente servem para expressar alguma emoção ou reação perante o interlocutor.

Os substantivos nomeiam as coisas do mundo; baseiam-se, mais profundamente, na noção de essência, seja ela natural ou artificial, abstrata ou concreta; e se classificam em abstratos e concretos. Os concretos denotam objetos que possuem ser próprio, e.g. fada, chinelo, caneta, celular, unicórnio; já os abstratos buscam nomear aquelas coisas que possuem ser derivado e temporário, que não subsistem por si, e.g. alarido, algazarra, felicidade, busca, inquietação. Costuma-se, ainda, dividi-lo em comum e próprio, isto é, quanto à generalidade de um termo, pois se predica de todos os entes específicos à sua natureza, e quanto à sua especificidade, na medida em que se predica de algo mais particular. Comum: caneta, humano; próprio: caneta Bic, José. É análoga à distinção traçada entre substância primeira e segunda nas Categorias de Aristóteles.

O adjetivo se configura na nomeação de qualidades, características não essenciais, não quantificáveis, que fazem parte de determinado sujeito ou objeto.

O artigo se trata da classe determinante ao substantivo; ele acompanha o substantivo a fim de separá-lo, elencá-lo, distingui-lo, seja de modo definido ou indefinido, e.g. o, a, um, uma, uns, umas.

O pronome é aquele termo morfossintático da oração usado para substituir ou se referir a um nome. Além das divisões específicas, acumulam duas categorizações mores, isto é, em pronomes substantivos, no caso de o pronome aparecer isolado e representar por si mesmo um nome: “ninguém pode descobrir essas coisas”; e adjetivos, quando aparecem junto a um substantivo, caracterizando esse substantivo de alguma forma: “lavei minha blusa, mas não a deixei secar”; minha aqui traz ideia de posse à blusa; estas não são excludentes com as próximas classificações.

Temos os pessoais: caso reto, que possuem importante parte na conjugação verbal (eu, tu, ele, nós, vós, eles). Estes exercem função de sujeito na oração; e do caso oblíquo, quando exercem função outra que não o sujeito, sendo átono e tônico – atente-se para o fato de que nos oblíquos pode-se ter as formas ele, ela, nesse caso, serão precedidas de preposição como exigem todos os pronomes oblíquos tônicos, e não exercerão função de sujeito. Em se tratando do caso reto, variam segundo a correspondente conjugação verbal e indicam número e pessoa, isto é, se o agente referido é uno ou múltiplo, e os possíveis pontos de vista compreendidos pela língua, e.g. eu, tu, ele, nós, vós, eles. Segue uma lista dos pronomes oblíquos: átonos (me, te, se, o, a, lhe, nos, vos, se, os, as, lhes); tônicos (mim, comigo, ti, contigo, si, consigo, ele, ela, nós, vós, conosco, convosco, si, consigo). Obs.: os pronomes si e consigo são sempre reflexivos.

Para o restante, há os de: tratamento, possessivos, demonstrativos, relativos, indefinidos e interrogativos. Vale ressaltar aqui os relativos e os possessivos; aqueles, especialmente no que diz respeito ao “que”, é necessário distingui-lo das conjunções, enquanto as conjunções introduzem novas orações, os pronomes relativos se referem a um termo antecedente, fazendo um movimento para trás, contrário às conjunções, que fazem-no em sentido contrário. Dessa forma, temos: “Lançou-lhe um olhar ‘que’ a chocou.” (pronome relativo) e “Foi tão ágil e rápida a saída, que Jandira achou graça.” (conjunção subordinativa). Ou seja, o “que” pode ser tanto um termo anafórico, no caso de ser um pronome, quanto uma conjunção integrante “que”.

Nos possessivos, é importante ressaltar dois aspectos e um caso particular. Nesses pronomes, há duas camadas interpretativas, a concordância e a referência. A concordância sempre flexiona o pronome de acordo com o objeto possuído: minha blusa, meu boné etc. A referência diz respeito ao sujeito que possui: em meu ou minha sou eu. Em sua, pode ser você ou ainda ele, casos em que se recomenda evitar tais ambiguidades quando isso não estiver claro pelo contexto, e.g. “sua casa está à venda”; a casa é do interlocutor a que o falante se refere ou é de um terceiro a que ele se refere em terceira e não segunda pessoa? É importante sempre manter claro na mente a articulação dessas duas facetas em construções frasais. Passando ao caso particular, é um em que se dá o pronome oblíquo com valor possessivo. Então seria como que uma combinação do possessivo e do pessoal do caso oblíquo, compreender esses casos mais complexos providenciará um domínio mais seguro e completo do tema. “Amo-te as sugestões gloriosas e funestas.” Veja que o verbo amar possui objeto próprio, excluindo o pronome oblíquo de outras funções como objeto direto ou indireto; assim, fica claro o valor possessivo se reescrevermos a frase: “Amo suas sugestões gloriosas e funestas.”

A classe dos numerais é relativamente simples, referindo-se a quantidades na língua, e.g. um, dois, três, primeiro, segundo etc. A divisão básica nessa classe se dá entre ordinais (primeiro, segundo, …) e cardinais (um, dois, …).

O verbo é uma palavra variável que representa um acontecimento transcorrido no tempo. Dentro de si, ele compreende variações no sentido numérico, pessoal, modal e temporal simultaneamente. Dentre as numéricas, têm-se as diferenças entre plural e singular; pessoais: 1ª, 2ª e 3ª pessoa, segundo as referências no ponto de vista; modais, no que diz respeito à atitude ou à natureza da afirmação/sentença. Se se deseja transmitir certeza, objetividade, imparcialidade, será no indicativo; se se deseja transmitir dúvida, conjectura, hipótese, condição futura e contingente, será no subjuntivo; e se se deseja transmitir comando, ordem a ser cumprida, pedido, se dá no imperativo. Por fim, os temporais indicam os tempos diversos compreendidos pelo idioma; os tempos verbais estão contidos nos modos verbais, cada qual com seus tempos especialíssimos em dois níveis de subdivisão.

No primeiro nível, temos os modos indicativo e subjuntivo com as divisões de pretérito (passado), presente e futuro, e o imperativo, presente apenas. No segundo nível, o indicativo subdivide o pretérito em pretérito imperfeito (ação transcorrida inacabada: estudava), pretérito perfeito (ação transcorrida, acabada: estudou, estudei), pretérito mais-que-perfeito (empregado para indicar ação passada que ocorreu antes de outra: estudara, já tinha estudado). O presente em uma forma apenas, e o futuro em futuro do presente (estudarei, terei estudado, estudarão, indica ação que ocorrerá no futuro) e futuro do pretérito (denota um fato que poderia ter acontecido posteriormente a uma situação passada, transmite a noção de contingência consumada: estudaria, teria estudado).

No subjuntivo, temos, uma vez mais, passado, presente e futuro, em que o tempo presente contém uma variação apenas; o pretérito, três: imperfeito (estudasse, hipótese de ação contínua no passado), perfeito (hipótese de ação conclusa no passado, haja/tenha estudado), mais-que-perfeito (hipótese de ação concluída anteriormente a outro estado de coisas no passado, houvesse/tivesse estudado); e o futuro, uma forma simples e composta (estudar, tiver/houver estudado).

Advérbios são aquelas classes que acompanham a ação verbal, qualificando-a, dando a ela circunstância: ordenadamente, mal, bem, muito, talvez, quiçá, bastante, por que, onde, como. Em regra, modificam verbos e advérbios, e suas classificações podem ser relativamente vastas conforme as circunstâncias que delineiam.

Chama-se preposição a palavra invariável que, ligando dois vocábulos, visa a completar o sentido do antecedente com o consequente, como conectores. Assim: “vou a praia”, “chegaram de Roma”. Quanto à forma, as preposições podem ser simples, expressas por um só vocábulo, ou compostas (locução prepositiva), constituídas por dois ou mais vocábulos, sendo o último deles uma preposição simples. As simples são: a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por (per), sem, sobre, sob, trás. Já as compostas são muitas: abaixo de, a par com, acerca de, a despeito de, de acordo com, dentro de, em frente de, graças a, etc. Importante também é explicar as relações de sentido que as preposições estabelecem entre os termos antecedentes e consequentes. Elas podem implicar movimento ou ausência de movimento (suspeito que isso tenha raízes nas partículas latinas “ad”, ir para, “ab”, sair de, vir de), e.g. “vou a Roma”, “saíram de casa” (movimento), “chegaram a tempo”, “estive com Pedro” (ausência de movimento ou permanência, situação). Estes são considerados com referência ao espaço, ao tempo e à noção (CUNHA; CINTRA, 2016).

A preposição “de”, por exemplo, estabelece uma relação espacial em: saíram de casa; nocional em chorava de dor; temporal em: trabalhava das 8 às 8 todos os dias. As preposições exprimem noções de teores semânticos diversos, como causa, posse, concomitância, finalidade, origem etc. Baseiam-se, porém, nas divisões fundamentais de movimento e situação, cada qual por sua vez se dividindo em espaço, tempo e noção. Num plano relacional, pode-se evidenciar que as preposições estabelecem relações livres, necessárias e fixas, num eixo crescente de esvaziamento do conteúdo significativo, respectivamente. Nas fixas, as preposições se tornam de tal forma aglutinadas às palavras que passam quase a constituir parte delas, formando verdadeiras palavras compostas; nesses casos, ela perde seu sentido para a unidade do termo significante, e.g. “O rapaz entrou no café da Rua Luís de Camões.”.

Nas necessárias, como o nome diz, as preposições relacionam ao termo principal um consequente sintaticamente necessário, uma espécie de meio-termo: “lembro-me de nada”, “fui a Cambridge”. Nas livres, o uso facultativo não prejudica a correção gramatical na ausência ou presença delas, e justamente por isso é que adquirem um realce significativo maior, podendo ser usadas em recursos de ênfase, ideias de associação, movimento e outros que tais: “encontrar com um amigo”, “encontrar um amigo”, “procurar por alguém”, “procurar alguém”. Estas últimas, normalmente, são recursos de alto valor estilístico. As preposições, longe de serem estáticas, são morfemas gramaticais riquíssimos em possibilidades, tramitando nesse âmbito relacional.

A um passo da sintaxe, as conjunções se estabelecem como classe transitória. Enquanto as preposições agem como conectores dentro dos limites da oração, as conjunções vão agir como conectores fora de seus limites, unindo orações na formação de períodos compostos. Porém, isso não significa que elas não possam relacionar termos intraoracionais, em situações tais, relacionam termos semelhantes na mesma oração:

“CONJUNÇÕES são os vocábulos gramaticais que servem para relacionar duas orações ou dois termos semelhantes da mesma oração.”

“As CONJUNÇÕES que relacionam termos ou orações de idêntica função gramatical têm o nome de COORDENATIVAS. Comparem-se os seguintes dizeres:

-O tempo e a maré não esperam por ninguém.

-Ouvi primeiro e falai por derradeiro.” (CUNHA; CINTRA, 2016, p.511).

Podemos classificar as conjunções segundo o tipo de relação que estabelecem entre os termos ligados, em coordenativas e subordinativas. Conjunções coordenativas unem dois termos ou orações de idêntica função gramatical, igualdade esta que decorre em independência sintática entre os elementos ligados. Nesse caso, as coordenadas serão mais propriamente conectores, ainda que exerçam função semântica no seu elo sintático.

Os diversos teores semânticos que podem ser estabelecidos no âmbito das conjunções coordenativas são de: adição (conjunções coordenativas aditivas) – “ajustou-se e deu partida.”; adversidade (coordenativas adversativas) – “é bom falar, mas ninguém fala.”; alternância ou disjunção, mais comumente sendo utilizado o sentido de disjunção exclusiva, em que, ao cumprir-se uma das sentenças unidas pelo termo ligante, a outra necessariamente deixa de cumprir-se (coordenativa alternativa) – “ou ele treina ou ele bebe”, “se exercitava ou estudava ou praticava sua guitarra”; conclusão (coordenativas conclusivas) – “fiz o que pude, pois não havia mais o que fazer”; explicação (coordenativas explicativas) – “venha cá, pois quero lhe mostrar o que fiz”, “ele não crê nisso, já que seus pressupostos são implausíveis”.

É importante comentar que os matizes significativos não estão condicionados a uma forma fixa na palavra; a conjunção “e”, por exemplo, pode assumir valor conclusivo, finalístico, enfático, adversativo e consecutivo além do aditivo. As variações no sentido são diversas e ricas em suas possibilidades.

As conjunções subordinativas classificam-se em causais, finais, consecutivas, comparativas, condicionais, concessivas, temporais e integrantes.

As conjunções, como elementos mais propriamente gramaticais do que lexicais, possuem influências diretas na construção sintática da frase e, por conseguinte, na natureza da oração e do período que irá se formar.

Uma vez mais, vale enfatizar o ponto das três chaves classificatórias: forma, sentido e relação.

Ex: “O jovem brasileiro conta com o estatuto da criança e do adolescente.”

Nesse caso, a forma da palavra nada nos diz. Olhando pelo lado semântico, brasileiro é caracterização, o adjetivo de jovem, que é o substantivo e sujeito da frase; e ainda pelo lado da relação, note-se que o artigo acompanha “jovem” como determinante.

“Entre os turistas, havia um jovem brasileiro e um velho japonês, os dois jovens encantados com a paisagem”

Aqui, o eixo determinante é o semântico, uma vez que os sujeitos a que nos referimos estão dentro do conjunto de turistas, e um fator caracterizante desse substantivo é a nacionalidade, a interação entre populações nativas e não nativas. Dessa forma, japonês e brasileiro são substantivos, e jovem e velho são adjetivos. No segundo trecho, porém, o eixo sintático prevalece pela ausência de um termo que forneça ambiguidade de relação, tendo assim o artigo “os” como determinante de jovens.

sintagma – expressão indissociável dentro de uma construção semântica.

Transição Morfologia/Sintaxe – Colocação pronominal

Há três regras básicas para o correto emprego dos pronomes oblíquos átonos:

  • Não iniciar oração com pronome oblíquo átono

“Ana chegou cedo, se sentou e falou” (errado)

“Ana chegou cedo, sentou-se e falou” (correto)

“Ana, após chegar, se sentou” (correto)

São duas orações separadas por vírgula: Ana se sentou // após chegar

  • Não escrever tais pronomes após verbo no particípio

“Tenho dedicado-me” (Errado)

“Tenho me dedicado” (correto)

Verbo no particípio puxa próclise.

  • Não escrever esses pronomes após verbo no futuro

“Ele faria-me um favor” (errado)

“Ele me faria um favor” (correto)

Casos de próclise obrigatória: negações, advérbios, conjunções subordinativas, pronomes relativos, demonstrativos, indefinidos, frases exclamativas, interrogativas, em + gerúndio.

Observação: a palavra atrativa tem força no primeiro verbo da locução.

Casos de ênclise obrigatória:

Verbo no início de oração:

“me trouxeram uma lembrança” (errado) “Trouxeram-me uma lembrança” (correto)

Verbo no imperativo afirmativo:

“Vá ali e me traga uma calça” (errado) “Vá ali e traga-me uma calça” (correto)

Mesóclise obrigatória: somente quando o verbo no futuro iniciar a oração.

Observação: fica indiferente aos casos de próclise o verbo no infinitivo.

“É importante não se irritar à toa” (Correto) “É importante não irritar-se à toa” (Correto)

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