O porquê não considero Yago Martins uma boa fonte acerca do Cristianismo

Trateremos do vídeo apontado acima como exemplo paradigmático da thread. O argumento central do Pastor nesse vídeo sofre de um problema hermenêutico clássico: a univocidade. Ele pressupõe que o ato de “se curvar”, “louvar” ou “entregar-se” tem sempre o mesmo peso ontológico, independentemente do objeto. Para ele, se eu me curvo diante de Deus e me curvo diante de um anjo, a ação física define a realidade espiritual. Venerar um santo não é “roubar” um pedaço da adoração devida a Deus, assim como amar meu irmão não rouba o amor que devo a Cristo. Pelo contrário: amamos o reflexo porque amamos a Luz.

Ademais, apesar do pastor dizer que a idolatria nasce no coração, ele não tarda em fazer uma confusão mental enorme na conta de sua cegueira intelectual, aceitando este fato da idolatria, ele nega que isso se aplicaria a Maria, reduzindo a idolatria a meros gestos exteriores.

O protestante confunde Apego Desordenado com Veneração Ordenada. O Apego Desordenado (Idolatria): Quando ele cita a avareza como idolatria (Cl 3:5), ele fala de tratar uma criatura (dinheiro) como Fim Último. Se eu trato o dinheiro como a fonte da minha segurança ontológica, isso é idolatria. A Veneração Ordenada (Dulia): O católico não trata Maria como Fim Último. Maria é tratada como meio excelso e modelo perfeito. Reconhecer a santidade de uma criatura não é idolatria, é realismo espiritual. Dizer que “alguém é santo” é dizer “Deus triunfou nesta pessoa”. A Falácia: Se o Pastor Yago estivesse certo, qualquer elogio exacerbado à esposa seria idolatria. Se ele diz “minha esposa é minha vida”, ele é idólatra? Não, é uma hipérbole poética de amor participado. A linguagem mariana (“Vida, doçura e esperança nossa”) opera na mesma chave poética e analógica, sempre subordinada a Cristo.

Outro exemplo interessante de mencionar, usando as escrituras mesmas que ele arroga como defensora infalível de seu calvinismo é particularmente sobre a prostração de veneração, e que isso não existe na bíblia, vamos então aos versículos:

Josué diante da Arca (Josué 7, 6): “Josué rasgou suas vestes e prostrou-se com a face por terra diante da Arca do Senhor… ele e os anciãos de Israel.” Josué se prostrou diante de um objeto sagrado (a Arca), que representava a presença de Deus. Ele não adorou a madeira, mas venerou a Presença que ela portava. Se venerar imagens ou relíquias fosse idolatria intrínseca, Josué teria pecado aqui. E Maria, santa Mãe de Deus, simbolicamente, tipologicamente, representa justamente o que?

O Profeta Natã diante de Davi (1 Reis 1, 23): “Disseram ao rei: ‘Aí está o profeta Natã’. Ele entrou diante do rei e prostrou-se com o rosto em terra.” Um profeta de Deus se prostra diante de um homem pecador. Por quê? Porque Davi era o “Ungido do Senhor”. A honra dada ao rei terminava em Deus, que o ungiu. Não houve idolatria, houve reconhecimento de autoridade delegada.

Abdias diante de Elias (1 Reis 18, 7): Abdias, que “temia muito ao Senhor”, ao ver o profeta Elias, prostrou-se com o rosto em terra e disse: “És tu, meu senhor Elias?”.

(Apocalipse 3, 9) Este é o texto que, exegeticamente, desmantela a tese de que proskuneo (prostrar-se) é sempre adoração divina. Jesus está falando à Igreja de Filadélfia sobre os perseguidores: “Eis que farei os da sinagoga de Satanás… farei que venham e se prostrem (proskunesousin) aos teus pés, e saibam que eu te amei.” (Ap 3, 9) O próprio Jesus diz que fará com que inimigos se prostrem (o mesmo verbo usado para adorar a Deus) aos pés dos cristãos. Se prostrar-se fosse, por natureza, adoração exclusiva a Deus, Jesus estaria forçando pessoas a cometerem idolatria diante dos cristãos. A única saída lógica é admitir a distinção católica: existe uma prostração de adoração e uma prostração de veneração/submissão.

Yago também sugere que a distinção entre latria e dulia é uma invenção tardia. A história mostra o contrário: os cristãos que eram comidos por leões no Coliseu já faziam essa distinção explicitamente.

1. O Martírio de Policarpo (Ano 155 d.C.)

Este é um dos documentos mais antigos da Igreja, escrito por testemunhas oculares da morte de São Policarpo, discípulo do Apóstolo João. Os pagãos e judeus temiam que os cristãos passassem a adorar Policarpo após sua morte. A resposta da Igreja de Esmirna é a definição perfeita de Latria vs. Dulia:

“Nós adoramos a Cristo, porque Ele é o Filho de Deus; quanto aos mártires, nós os amamos como discípulos e imitadores do Senhor, e dignamente, por causa de sua incomparável devoção ao seu Rei e Mestre.” (Martírio de Policarpo, 17:3)

2. São Jerônimo contra Vigilâncio (Ano 406 d.C.)

No século IV, um sacerdote chamado Vigilâncio acusou a Igreja de idolatria por honrar relíquias de santos (exatamente o argumento de Yago). São Jerônimo, o grande tradutor da Bíblia, respondeu com sua conhecida virulência intelectual na obra Contra Vigilâncio:

“Nós não adoramos, não adoramos — digo eu — nem as relíquias dos mártires, nem o sol, nem a lua, nem os anjos… Mas honramos as relíquias dos mártires para, através delas, adorarmos Aquele de quem eles foram mártires.”

3. Santo Agostinho (A Cidade de Deus, Séc. V)

Santo Agostinho sistematizou a terminologia. Em A Cidade de Deus (Livro X, Cap. 1), ele discute a pobreza da linguagem humana e a necessidade de distinção mental:

“Chamamos latria ao serviço que pertence a Deus… Mas, à consagração e afeto devidos aos homens ou anjos santos, usamos outra palavra… A distinção é clara na piedade, mesmo que às vezes as palavras nos faltem.”

— O Selo do Magistério: II Concílio de Niceia (787 d.C.)

A questão foi resolvida dogmaticamente muito antes da Reforma Protestante. Quando os iconoclastas (destruidores de imagens) atacaram a Igreja no século VIII, o II Concílio de Niceia definiu formalmente a doutrina, baseando-se em toda a tradição anterior (Basílio Magno, João Damasceno).

O Concílio decretou: Aos ícones, à Cruz, aos Evangelhos e aos Santos deve-se prestar Veneração Honrosa (Timetiké Proskynesis). A Verdadeira Adoração (Latreia) é reservada somente à Natureza Divina.

O argumento conciliar era cristológico: “A honra prestada à imagem remonta ao Protótipo”. Quem venera o ícone de Cristo, venera a Pessoa de Cristo. Quem venera o ícone de um santo, venera a Graça de Deus operante naquele santo.

-A Questão do Sacrifício e a Eucaristia

Aqui reside o ponto mais profundo que a teologia protestante, desprovida de sacrifício real, tem dificuldade de acessar. Yago argumenta que “louvor é sacrifício”, logo, louvar Maria é sacrificá-la. Isso é um reducionismo litúrgico. Na Antiga e na Nova Aliança, o Sacrifício (Latria) exige a oferta de uma vítima em reconhecimento do domínio absoluto do Criador sobre a criatura.

-O louvor é um sacrifício metafórico ou moral.

-A Eucaristia é um sacrifício ontológico e substancial.

Quando católicos diferenciam Latria de Dulia, não é um “malabarismo linguístico”, é uma distinção de finalidade. Na Missa, nós oferecemos o Cristo ao Pai. Nós nunca, jamais, oferecemos Cristo a Maria. Nós nunca oferecemos Maria ao Pai como vítima propiciatória. Isso seria idolatria.

Nós nos unimos às orações de Maria para adorar a Deus. A diferença não é grau, é de natureza. O pastor não percebe isso porque, em sua teologia, o culto foi reduzido à pregação e ao louvor verbal; logo, se ele louva verbalmente um santo, ele sente que está fazendo a mesma coisa que faz com Deus. O católico sabe que acender uma vela (veneração) não tem nada a ver com a Consagração Eucarística (adoração).

Finalmente, o argumento do Yago atomiza o cristão. Para ele, a relação é “Eu-Deus”, e qualquer coisa no meio é obstáculo. Para a teologia católica (e para Paulo), a relação é “Eu-Corpo de Cristo-Cabeça”. A morte não rompe o Corpo de Cristo. Se eu posso pedir ao Pastor Yago que ore por mim (intercessão), e isso não é idolatria, por que pedir a Maria (que está mais viva que ele, pois está na visão beatífica) seria idolatria? Mas isso já é dito ad nauseum hoje em dia.

Cristo é o único mediador constitutivo (que une humanidade e divindade). Mas ele estabelece mediadores participativos.

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